Como fica a saúde mental de estagiários diante da pressão da rotina?

Como fica a saúde mental de estagiários diante da pressão da rotina?
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Conciliar faculdade, estágio e expectativas profissionais exige equilíbrio para evitar que a sobrecarga comprometa o bem-estar

Rotina de trabalho, demandas acadêmicas, novos aprendizados constantes e pressão para causar uma boa impressão aos gestores. Todos esses fatores, juntos, podem fazer com que a saúde mental de estagiários fique abalada durante períodos de maior sobrecarga e estresse.

Embora muitas pessoas ainda enxerguem o estágio como uma posição com menores atribuições e responsabilidades, em diversas áreas, os estudantes já são inseridos em rotinas intensas de trabalho, nas quais precisam atuar sob pressão e dividir a atenção entre múltiplas demandas.

Não por acaso, um em cada dez estagiários no Brasil já apresentou problemas de saúde mental relacionados ao trabalho atual ou anterior, de acordo com levantamento realizado pela Companhia de Estágios, em 2024, com 6,2 mil estudantes. Em algumas profissões, especialmente naquelas que envolvem atendimento direto ao público, o desgaste pode ser ainda maior.

Saúde mental de estagiários: como reconhecer quando é hora de pedir ajuda?

Sentir insegurança diante de uma nova tarefa ou ansiedade no início da carreira faz parte do processo de adaptação. O sinal de alerta aparece quando essas sensações deixam de ser pontuais e começam a comprometer o desempenho no estágio, os estudos e a vida pessoal.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a síndrome de burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi administrado de forma adequada. Já o Ministério da Saúde destaca que a condição provoca exaustão física e emocional, reduz a capacidade de concentração e afeta o desempenho profissional, além de também minar o interesse pessoal em outras atividades.

Entre os principais sinais de sobrecarga emocional, estão:

  • sensação constante de cansaço, mesmo após descansar;
  • dificuldade de concentração e queda no rendimento;
  • irritabilidade e mudanças frequentes de humor;
  • alterações no sono ou no apetite;
  • dores de cabeça e outros sintomas físicos recorrentes;
  • perda de motivação para o estágio ou para a faculdade;
  • sensação de incapacidade ou de que nunca faz o suficiente.

Além dos sintomas individuais, também é importante observar o ambiente de trabalho. Cobranças incompatíveis com a função de aprendizagem, acúmulo de responsabilidades sem supervisão, feedbacks constrangedores, falta de orientações, controle excessivo das atividades e desrespeito à carga horária prevista na Lei do Estágio (Lei nº 11.788 ) não fazem parte de um programa saudável. Nesses casos, conversar com o supervisor, procurar a instituição de ensino ou recorrer ao setor responsável pelo estágio pode impedir que a situação evolua para um quadro de adoecimento.

Áreas que podem demandar mais dos estagiários

A intensidade da rotina varia conforme o curso e o local de estágio, mas algumas áreas reúnem fatores que aumentam o risco de sofrimento psíquico. Nos cursos da saúde, por exemplo, estudantes convivem desde cedo com pacientes, doenças, processos de reabilitação e outras situações de vulnerabilidade social, ao mesmo tempo em que precisam dar conta de uma formação acadêmica exigente. Erros também são menos tolerados, uma vez que podem causar consequências diretas aos pacientes.

Uma revisão veiculada em 2025 na “Brazilian Journal of Health Review”, que analisou 30 estudos publicados entre 1992 e 2024, identificou que a elevada carga acadêmica, a privação de sono e as demandas emocionais da formação estão entre os principais fatores associados ao burnout, à ansiedade e à redução da qualidade de vida entre estudantes de cursos superiores como medicina, enfermagem e psicologia.

Esse cenário também alcança estudantes da faculdade de nutrição, por exemplo, e de outras graduações da área da saúde. Além das atividades em sala de aula, muitos realizam estágios em hospitais, ambulatórios e Unidades Básicas de Saúde, em que o contato frequente com pacientes exige preparo técnico e equilíbrio emocional.

Conciliação do estágio com estudos e expectativas

O estágio foi criado para complementar a formação acadêmica, permitindo que o estudante transforme o conhecimento teórico em prática profissional. Quando a rotina de trabalho passa a competir com as demandas da faculdade, porém, o aprendizado tende a perder espaço para a exaustão.

Organizar prioridades, estabelecer horários para descanso e respeitar os próprios limites são estratégias que ajudam a preservar a saúde emocional. Também é importante evitar assumir tarefas além da própria capacidade apenas para demonstrar comprometimento. Aprender inclui fazer perguntas, pedir orientação, se permitir cometer erros e reconhecer que o desenvolvimento acontece de forma gradual.

Além disso, a pressão pela efetivação ou pelo desempenho perfeito também pode levar muitos estudantes a acreditar que precisam dar conta de tudo sozinhos. No entanto, o Future of Jobs Report 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, aponta resiliência, flexibilidade e capacidade de adaptação entre as competências mais valorizadas pelas empresas. Construir essas habilidades passa, necessariamente, pelo cuidado com a própria saúde mental. No entanto, isso depende também de ambientes de trabalho que respeitem o caráter educativo do estágio, a carga horária prevista em lei e os limites de quem ainda está em processo de formação.

Créditos: iStock/findfootagehq

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